Cartas a Veja
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A educação para vida…
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Publicado por Nivaldo Jr em 28 Ago 2008 | sob: Cartas a Veja
Quero registrar a minha indignação frente à reportagem da Revista VEJA de 20/08/2008, especialmente no que diz respeito aos comentários sobre o Professor Paulo Freire.
As repórteres demonstram muito mais que desinformação; contraditoriamente, defendem a neutralidade da educação porém, evidenciam, nessa matéria, posições políticas em relação ao ensino, comprovando que a neutralidade da educação é um mito, como afirmou o professor Paulo Freire, há mais de três décadas.
É importante registrar que Paulo Freire é reconhecido, mundialmente , como um dos maiores educadores do século XX, por ser autor de uma pedagogia crítica a favor dos oprimidos. Toda a sua vida e obra são marcadas pela defesa da ética universal do ser humano. Escreve Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996) :
(…) Falo da ética que condena o cinismo do discurso […] , que condena a exploração da força de trbalho do ser humano, que condena acusar por ouvir dizer, afirmar que alguém falou A sabendo que foi dito B, falsear a verdade, iludir o incauto, golpear o fraco e indefeso, soterrar o sonho e a utopia, prometer sabendo que não cumprirá a promessa, testemunhar mentiroamente, falar mal dos outros pelo gosto de fala mal (…) A ética de que falo é a que se sabe afrontada na manisfestação discriminatória de raça, de gênero , de classe(…).
A atualidade do seu pensamento vem sendo atestada pela multiplicidade de experiências que se desenvolvem tomando o seu pensamento como referência, em diferentes áreas do conhecimento. A crescente publicação das obras de Paulo Freire, em dezenas de idiomas, a ampliação de fóruns, cátedras e centros de pesquisa criados para pesquisar e debater o legado freireano, são indicações da grande vitalidade do seu pensamento.
As obras de Paulo Freire, incluindo mais de 20 livros foram e ainda são publicadas em dezenas de países. O seu livro mais importante, Pedagogia do Oprimido, foi traduzido em mais de vinte idiomas, com tiragem já na marca dos quinhentos mil exemplares.
Essa projeção confere ao conjunto de suas produções o caráter de uma obra universal. A essas evidências acrescente-se o grande número de sistemas públicos de ensino no Brasil que têm , especialmente nos últimos vinte anos, tomado a proposta freireana como referência para o seu trabalho. Frente a esses fatos, não se pode aceitar que os professores que valorizaram a contribuição de Paulo Freire, mencionados nessa reportagem da Veja, “idolatram um arcano e estão no passado”. No mínimo, essas afirmações equivocadas, sem fundamento e irreverentes, não merecem qualquer crédito.
Ana Maria Saul é doutora em Educação, professora titular da PUC/SP e Coordenadora da Cátedra Paulo Freire.da PUC de São Paulo.
Publicado por Nivaldo Jr em 20 Ago 2008 | sob: Cartas a Veja
Ao ler a matéria sobre – Especial Educação – Você sabe o que estão ensinando a ele?
Redigido por Mônica Weinberg e Camila Pereira, quero elucidar o porquê os educadores compartilham da concepção de educação concebida e defendida por Paulo Freire.
Afirmo que 29% dos educadores que na atualidade defendem suas idéias, assim o fazem não porque o idolatramos ingenuamente, mas ter sido um dos maiores educadores e filósofos da educação do século XX. O mesmo foi consagrado por conceber a alfabetização como um meio para democratizar a cultura e como oportunidade para que os indivíduos realizem uma reflexão de suas relações com o mundo.
Paulo Freire cria uma concepção de alfabetização que modifica radicalmente o material com que se alfabetiza e, portanto, a intencionalidade com que se alfabetiza.
O convite que Paulo Freire fez reiteradamente em suas obras aos educadores continua sendo extremamente atual e pertinente. Representa afirmar sim, que este profissional da educação faz escolhas e suas práticas educativas estarão a serviço de um projeto social e contra outro. Freire em sua obra: Política e Educação (2001, p.41) relata que sua primeira afirmação sobre a impossibilidade de a educação ser neutra é a de que a qualidade pela qual lutamos nos faz eleger e assumir valores, princípios que estarão em função de um projeto social. E, como não dizer que a atual “qualidade” da educação está a serviço de interesses de classes ou de grupos. Como dizia Freire, há formas antagônicas de ver a verdade - a dos dominantes e a dos dominados. “No fundo, ocultar ou desocultar verdades não é uma prática neutra”.
Em seus primeiros escritos – Pedagogia do Oprimido, 1967, o mesmo já defendia o que o papel do educador era de não falar ao povo sobre a nossa visão de mundo, ou impô-la, mas a de dialogar com ele sobre a sua e a nossa.
O que não é possível é estar neste mundo e com os outros seres humanos sem refletirmos sobre o por que fazemos o que fazemos, a favor de que e de quem agimos desta forma. E é neste domínio do ser humano como Presença no mundo que comparecemos à História não apenas como seu objeto, mas como sujeito, capaz de pensar, falar, sentir, comparar, valorar, avaliar, optar, romper, decidir, apreender, aprender, ensinar, consciente si mesmo como um ser no mundo, com o mundo e com os outros seres humanos, tornando-se uma Presença crítica no mundo.
Para nós educadores progressistas a prática educativa será sempre aquela que desoculta/ desvela a razão pelo qual estamos sendo na realidade. Lutamos não por qualquer tipo de qualidade em educação, mas por uma certa qualidade de educação. A favor de um projeto social e de ser humano. Paulo Freire (2001, p. 43) lutou por concretizar na administração da cidade de São Paulo, no período de (1989-1992), como Secretario da Educação, uma educação a serviço das classes trabalhadoras e a favor de uma prática educativa séria, rigorosa, democrática, alegre e em nada discriminadora nem dos renegados e nem dos favorecidos. Uma prática fundamentalmente desveladora das verdades, desocultadora, iluminadora das tramas sociais e históricas.
A concepção de qualidade para Paulo Freire era aquela que desafiava os educadores e educandos, os pais, funcionários, direção da escola, a comunidade escolar a participar da reconstrução da escola pública e popular.
Acredito que o pensamento de Paulo Freire, com certeza, esteja em oposição aos interesses de um grupo ou de classes sociais vigentes em nosso país, porque o mesmo defendia, como muitos de nós defendemos, que o nosso exercício ético em sala de aula reside sim, em expormos as nossas razões porque defendemos determinados autores e realizamos uma certa leitura que se distancia de outras formas de se compreender a realidade atual.
Compartilho da posição defendida por Freire em que o mesmo diz que a riqueza reside em dialogarmos com nossos educandos no sentido de pesquisarmos e realizarmos uma leitura crítica dos diferentes pontos de vista defendidos na atualidade. E, aí sim, através do exercício consciente, crítico de pensar a vida, o educando possa construir sua visão e intervenção no mundo.
Não há exercício democrático e ético se não testemunharmos aos nossos educandos o que pensamos e por que pensamos. Freire dizia:
“Não pode haver caminho mais ético, mais verdadeiramente democrático do que testemunhar aos educandos como pensamos, as razões por que pensamos desta ou daquela forma, os nossos sonhos, os sonhos por que brigamos, mas ao mesmo tempo, dando-lhes provas concretas, irrefutáveis, de que respeitamos suas opções em oposição às nossas. (…)
Falamos em ética e em postura substantivamente democrática porque, não sendo neutra, a prática educativa, a formação humana, implica opções, rupturas, decisões, estar com e pôr-se contra, a favor de alguém. E é exatamente este imperativo que exige a eticidade do educador e sua necessária militância democrática a lhe exigir a vigilância permanente no sentido da coerência entre o discurso e a prática.” (2001, p.38).
Para Paulo Freire o processo de alfabetização é um projeto político no qual homens e mulheres afirmam o seu direito e sua responsabilidade não apenas de ler, compreender e transformar suas experiências pessoais, mas a possibilidade de erguer suas vozes na refeitura desse mundo. Freire expressa reiteradamente em suas obras a importância do respeito por parte do educador em relação à leitura de mundo do educando, não somente pela oportunidade de melhor conhecer o nível cognitivo e afetivo e a sua situação existencial, mas o de reconhecer que o saber que traz à escola tem relevância cultural, social e histórico. A leitura de mundo revela também a inteligência de cada um nesse processo de viver o mundo. Respeitar a leitura de mundo não é uma tática em que o educador procura ser mais simpático ao educando, é uma concepção democrática de construir o currículo na qual se revela que o “saber de experiência feito” e a curiosidade que o aluno traz à escola serão o ponto de partida para ir mais além, e nunca o ponto de chegada.
O processo de alfabetização representa a possibilidade de escolher temas críticos da cultura estudantil, possibilitando ao educador iniciar o processo de estudos a partir dos níveis cognitivos e políticos dos educandos, para ver com que tipo de pensamento crítico, de instrução e de idéias políticas eles trazem ao curso. Isto representa dizer que o início do percurso se inicia através do respeito ao saber que o educando traz à escola como o ponto de partida real, concreto, do senso comum, para ao longo dos estudos superar esta compreensão ingênua, tornando-a mais rigorosa e científica.
Representa ainda afirmar que para Paulo Freire, a alfabetização crítica e libertadora é a oportunidade de o educando refletir sobre a sua própria capacidade de refletir. De refletir sua existência. É um processo que o desafia a ler a palavra e aprender a escrevê-la, convidando-o a continuar a re-leitura do mundo na qual a mesma se originou. Para ele a alfabetização só tem sentido quando se dá “num encontro”:
“Um encontro de consciências”. Reflexão sobre a própria alfabetização, que deixa assim de ser algo externo ao homem, para ser dele mesmo. Para sair de dentro de si, em relação com o mundo, como uma criação.
Só assim nos parece válido o trabalho de alfabetização, em que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido”.
(2003, p150).
Finalizo a minha resposta, resgatando mais uma fala de Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, onde o autor afirma a sua real preocupação e lealdade. Freire explica que defende que os avanços da ciência, o desenvolvimento econômico devem estar a serviço dos seres humanos, portanto, a elaboração e execução de políticas governamentais devem privilegiar fundamentalmente o homem e a mulher . Por isso, a grande lealdade e preocupação a que Freire está vinculado, acima de tudo, é com a solidariedade humana.
“É neste sentido que jamais abandonei a minha preocupação com a natureza humana, a que devo a minha lealdade sempre proclamada. Antes mesmos de ler Marx já fazia minhas as suas palavras: já fundava a minha radicalidade na defesa dos legítimos interesses humanos. Nenhuma teoria da transformação política-social do mundo me comove, sequer, sem ao parte de uma compreensão do homem e da mulher enquanto seus fazedores da História e por ela feitos, seres de3 decisão, da ruptura, da opção. Seres éticos, mesmo capazes de transgredir a ética indispensável, algo de que tenho insistentemente “falado” neste texto. Tenho afirmado e reafirmado o quanto realmente me alegra saber-me um ser condicionado mas capaz de ultrapassar o próprio condicionamento. A grande força sobre que alicerça-se a nova rebeldia é a ética universal do ser humano e não a do mercado, insensível a todo reclamo das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. É a ética da solidariedade humana.
((2001, p.145-146).
Em síntese, Paulo Freire construiu uma concepção de alfabetização que põe o “método” a serviço de uma certa política e filosofia da educação.
Por ter sido reconhecido como um grande educador e pensador pela comunidade acadêmica e pelos educadores, seus livros foram publicados em mais de vinte línguas e o mesmo recebeu o título de Doutor honoris causa de 28 universidades espalhadas pelo mundo e também 26 centros de pesquisa recebem o seu nome. A contribuição de Paulo Freire foi além de um método, concebeu uma concepção de alfabetização que revolucionou as idéias até então em circulação. Paulo Freire é autor de uma proposta de alfabetização crítica, de uma filosofia e uma pedagogia.
Silvana Donadio Vilela Lemos
Doutoranda do curso de Educação e Currículo – PUC/SP
PUC/SP
Livros consultados:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à Pratica educativa. 2001,17º edição, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
FREIRE, Paulo. Política e Educação. 2001, 6º edição, Cortez, São Paulo.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 1987, 27º edição, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. 2003, 27º, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
Publicado por Nivaldo Jr em 20 Mai 2006 | sob: Cartas a Veja
Juro que tentei montar um texto “bacaninha” para escrever como introdução à carta que segue, mas creio que meu espirito de educador bonzinho está se esgotando, fiquei extremamente irritado com duas reportagens da revista Veja ( revista esta, que após me desapontar novamente, prometi nunca mais folheá-la em busca de informação enquanto perceber essa linha tendenciosa que paira sobre este edital) decidi então mandar uma carta à revista.
A carta esta “cega” por algum tipo de sentimento e pode ter acontecido de alguns erros passarem desapercebidos por mim, mas decidi publicar aqui a cartinha enviada a Veja.
A/c Revista Veja
Sou formado em Ciências da Computação e sou graduando do curso de pedagogia da universidade São Judas Tadeu.
Recentemente estou percebendo que a revista Veja tem dado o devido destaque ao debate educacional, mas aos poucos estou percebendo certo sensacionalismo inerente àqueles que não sabem o que diz, mas tudo dizem.
Estou completamente indignado com o fato de a revista tratar o Construtivismo como um simples método educacional de alfabetização, o que é um absurdo. Numa pequena pesquisa em qualquer site de busca com a seguinte pergunta “o que é construtivismo” seremos levados à uma série de sites que de uma forma ou outra nos mostram o que realmente é tal proposta.
A revista Veja, que é uma das mais lidas revistas em circulação, deveria se preocupar um pouco mais com a veracidade e qualidade daquilo que escreve e publica, pois geralmente isso é tomado como verdade absoluta entre aqueles que a lêem. Ao afirmar que 60% das escolas brasileiras são construtivistas a revista certamente erra, as escolas brasileiras em sua maioria são tradicionais, basta analisar o currículo que elas empregam na educação, agora caso encontremos algum currículo que indique uma proposta construtivista, ainda teremos que olhar a maneira como essa escola trabalha.
Outra grande besteira feita pela revista foi confirmar que as escolas européias e Norte Americanas usam o método fônico e não são construtivistas, ora, a Europa é o maior berço do construtivismo e nada impede que uma proposta construtivista utilize, como parte do processo, algo fônico. Na realidade o processo de construção em si é, em parte fônico.
Associar o fracasso da educação no Brasil ao método que está sendo aplicado nas escolas (e podemos facilmente perceber que é um método tradicional de ensino na grande maioria das escolas, outra grande parte está num processo de transição, mudando do tradicional para o construtivista, e por fim uma pequena minoria já está utilizando-se da proposta construtivista) é certamente um erro, seria como em um time de futebol que só perde de goleada trocar o atacante do time pois ele não faz gol. O método utilizado pelo professor no processo de alfabetização certamente deve ser discutido, mas não ser colocado como o principal fator que leva a educação brasileira a ser a pior educação do mundo, outros fatores devem ser levados em conta, fatores políticos, fatores culturais, etc.
Mas essa visão que a revista mostra pode ser justificada pelo absurdo cometido pela revista na sua edição de 3 de maio de 2006, em seu suplemento Veja São Paulo, na capa da revista lemos:
“O futuro já chegou às escolas – simuladores de realidade virtual, internet sem fio e lousas digitais estão revolucionando as aulas nos colégios paulistas”
Tenho 28 anos e nasci na cidade de São Paulo, leciono deste os meus 19 anos em escola particular, tenho amigos educadores que também trabalham em escola particular e posso garantir que o futuro chegou a uma pequeníssima parte dos colégios paulistas, simuladores de realidade virtual, isso é parte de uma minoria, que certamente pode ser contada nos dedos.
Para ser bem otimista vou pensar que na cidade de São Paulo 200 colégios utilizam tais aparelhos, num universo de centenas e milhares de escolas, esse número chega a ser irrisório e, na realidade, não acredito que essas escolas somadas cheguem a 100 unidades.
Logo, uma revista que parte de um pressuposto que se uma pequena parte dos colégios particulares da cidade utilizam de tal tecnologia é o suficiente para ter em sua capa: “O futuro já chegou às escolas – simuladores de realidade virtual, internet sem fio e lousas digitais estão revolucionando as aulas nos colégios paulistas” quando na realidade muitas das escolas nem computadores possuem e outras ainda lutam por paredes, pode-se esperar que essa mesma revista coloque o Construtivismo como método e ainda comece a questionar a eficácia de tal proposta.
Para não ficar nesta de apenas criticar, procurem um profissional da área de educação que realmente entenda o que é construtivismo, escutem esse profissional, debatam com ele, vejam os pontos fortes e fracos de uma ou outra proposta educacional. Enquanto a intenção dos pensadores for a de achar um culpado, seja ele um método, modelo ou proposta, certamente a educação nacional não terá futuro. É preciso sentar e discutir propostas e não atacá-las.
Em relação a tecnologia educacional, procurem algo sobre webquests, podcast, webgincana, etc. Certamente isso está mais perto da realidade de uma porcentagem de escolas da cidade.
Atenciosamente
Nivaldo Junior