Resposta à matéria trazida na Veja de 20.08.2008 - Por Silvana Lemos
Publicado por Nivaldo Jr em 20 Ago 2008 | sob: Cartas a Veja
Ao ler a matéria sobre – Especial Educação – Você sabe o que estão ensinando a ele?
Redigido por Mônica Weinberg e Camila Pereira, quero elucidar o porquê os educadores compartilham da concepção de educação concebida e defendida por Paulo Freire.
Afirmo que 29% dos educadores que na atualidade defendem suas idéias, assim o fazem não porque o idolatramos ingenuamente, mas ter sido um dos maiores educadores e filósofos da educação do século XX. O mesmo foi consagrado por conceber a alfabetização como um meio para democratizar a cultura e como oportunidade para que os indivíduos realizem uma reflexão de suas relações com o mundo.
Paulo Freire cria uma concepção de alfabetização que modifica radicalmente o material com que se alfabetiza e, portanto, a intencionalidade com que se alfabetiza.
O convite que Paulo Freire fez reiteradamente em suas obras aos educadores continua sendo extremamente atual e pertinente. Representa afirmar sim, que este profissional da educação faz escolhas e suas práticas educativas estarão a serviço de um projeto social e contra outro. Freire em sua obra: Política e Educação (2001, p.41) relata que sua primeira afirmação sobre a impossibilidade de a educação ser neutra é a de que a qualidade pela qual lutamos nos faz eleger e assumir valores, princípios que estarão em função de um projeto social. E, como não dizer que a atual “qualidade” da educação está a serviço de interesses de classes ou de grupos. Como dizia Freire, há formas antagônicas de ver a verdade - a dos dominantes e a dos dominados. “No fundo, ocultar ou desocultar verdades não é uma prática neutra”.
Em seus primeiros escritos – Pedagogia do Oprimido, 1967, o mesmo já defendia o que o papel do educador era de não falar ao povo sobre a nossa visão de mundo, ou impô-la, mas a de dialogar com ele sobre a sua e a nossa.
O que não é possível é estar neste mundo e com os outros seres humanos sem refletirmos sobre o por que fazemos o que fazemos, a favor de que e de quem agimos desta forma. E é neste domínio do ser humano como Presença no mundo que comparecemos à História não apenas como seu objeto, mas como sujeito, capaz de pensar, falar, sentir, comparar, valorar, avaliar, optar, romper, decidir, apreender, aprender, ensinar, consciente si mesmo como um ser no mundo, com o mundo e com os outros seres humanos, tornando-se uma Presença crítica no mundo.
Para nós educadores progressistas a prática educativa será sempre aquela que desoculta/ desvela a razão pelo qual estamos sendo na realidade. Lutamos não por qualquer tipo de qualidade em educação, mas por uma certa qualidade de educação. A favor de um projeto social e de ser humano. Paulo Freire (2001, p. 43) lutou por concretizar na administração da cidade de São Paulo, no período de (1989-1992), como Secretario da Educação, uma educação a serviço das classes trabalhadoras e a favor de uma prática educativa séria, rigorosa, democrática, alegre e em nada discriminadora nem dos renegados e nem dos favorecidos. Uma prática fundamentalmente desveladora das verdades, desocultadora, iluminadora das tramas sociais e históricas.
A concepção de qualidade para Paulo Freire era aquela que desafiava os educadores e educandos, os pais, funcionários, direção da escola, a comunidade escolar a participar da reconstrução da escola pública e popular.
Acredito que o pensamento de Paulo Freire, com certeza, esteja em oposição aos interesses de um grupo ou de classes sociais vigentes em nosso país, porque o mesmo defendia, como muitos de nós defendemos, que o nosso exercício ético em sala de aula reside sim, em expormos as nossas razões porque defendemos determinados autores e realizamos uma certa leitura que se distancia de outras formas de se compreender a realidade atual.
Compartilho da posição defendida por Freire em que o mesmo diz que a riqueza reside em dialogarmos com nossos educandos no sentido de pesquisarmos e realizarmos uma leitura crítica dos diferentes pontos de vista defendidos na atualidade. E, aí sim, através do exercício consciente, crítico de pensar a vida, o educando possa construir sua visão e intervenção no mundo.
Não há exercício democrático e ético se não testemunharmos aos nossos educandos o que pensamos e por que pensamos. Freire dizia:
“Não pode haver caminho mais ético, mais verdadeiramente democrático do que testemunhar aos educandos como pensamos, as razões por que pensamos desta ou daquela forma, os nossos sonhos, os sonhos por que brigamos, mas ao mesmo tempo, dando-lhes provas concretas, irrefutáveis, de que respeitamos suas opções em oposição às nossas. (…)
Falamos em ética e em postura substantivamente democrática porque, não sendo neutra, a prática educativa, a formação humana, implica opções, rupturas, decisões, estar com e pôr-se contra, a favor de alguém. E é exatamente este imperativo que exige a eticidade do educador e sua necessária militância democrática a lhe exigir a vigilância permanente no sentido da coerência entre o discurso e a prática.” (2001, p.38).
Para Paulo Freire o processo de alfabetização é um projeto político no qual homens e mulheres afirmam o seu direito e sua responsabilidade não apenas de ler, compreender e transformar suas experiências pessoais, mas a possibilidade de erguer suas vozes na refeitura desse mundo. Freire expressa reiteradamente em suas obras a importância do respeito por parte do educador em relação à leitura de mundo do educando, não somente pela oportunidade de melhor conhecer o nível cognitivo e afetivo e a sua situação existencial, mas o de reconhecer que o saber que traz à escola tem relevância cultural, social e histórico. A leitura de mundo revela também a inteligência de cada um nesse processo de viver o mundo. Respeitar a leitura de mundo não é uma tática em que o educador procura ser mais simpático ao educando, é uma concepção democrática de construir o currículo na qual se revela que o “saber de experiência feito” e a curiosidade que o aluno traz à escola serão o ponto de partida para ir mais além, e nunca o ponto de chegada.
O processo de alfabetização representa a possibilidade de escolher temas críticos da cultura estudantil, possibilitando ao educador iniciar o processo de estudos a partir dos níveis cognitivos e políticos dos educandos, para ver com que tipo de pensamento crítico, de instrução e de idéias políticas eles trazem ao curso. Isto representa dizer que o início do percurso se inicia através do respeito ao saber que o educando traz à escola como o ponto de partida real, concreto, do senso comum, para ao longo dos estudos superar esta compreensão ingênua, tornando-a mais rigorosa e científica.
Representa ainda afirmar que para Paulo Freire, a alfabetização crítica e libertadora é a oportunidade de o educando refletir sobre a sua própria capacidade de refletir. De refletir sua existência. É um processo que o desafia a ler a palavra e aprender a escrevê-la, convidando-o a continuar a re-leitura do mundo na qual a mesma se originou. Para ele a alfabetização só tem sentido quando se dá “num encontro”:
“Um encontro de consciências”. Reflexão sobre a própria alfabetização, que deixa assim de ser algo externo ao homem, para ser dele mesmo. Para sair de dentro de si, em relação com o mundo, como uma criação.
Só assim nos parece válido o trabalho de alfabetização, em que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido”.
(2003, p150).
Finalizo a minha resposta, resgatando mais uma fala de Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, onde o autor afirma a sua real preocupação e lealdade. Freire explica que defende que os avanços da ciência, o desenvolvimento econômico devem estar a serviço dos seres humanos, portanto, a elaboração e execução de políticas governamentais devem privilegiar fundamentalmente o homem e a mulher . Por isso, a grande lealdade e preocupação a que Freire está vinculado, acima de tudo, é com a solidariedade humana.
“É neste sentido que jamais abandonei a minha preocupação com a natureza humana, a que devo a minha lealdade sempre proclamada. Antes mesmos de ler Marx já fazia minhas as suas palavras: já fundava a minha radicalidade na defesa dos legítimos interesses humanos. Nenhuma teoria da transformação política-social do mundo me comove, sequer, sem ao parte de uma compreensão do homem e da mulher enquanto seus fazedores da História e por ela feitos, seres de3 decisão, da ruptura, da opção. Seres éticos, mesmo capazes de transgredir a ética indispensável, algo de que tenho insistentemente “falado” neste texto. Tenho afirmado e reafirmado o quanto realmente me alegra saber-me um ser condicionado mas capaz de ultrapassar o próprio condicionamento. A grande força sobre que alicerça-se a nova rebeldia é a ética universal do ser humano e não a do mercado, insensível a todo reclamo das gentes e apenas aberta à gulodice do lucro. É a ética da solidariedade humana.
((2001, p.145-146).
Em síntese, Paulo Freire construiu uma concepção de alfabetização que põe o “método” a serviço de uma certa política e filosofia da educação.
Por ter sido reconhecido como um grande educador e pensador pela comunidade acadêmica e pelos educadores, seus livros foram publicados em mais de vinte línguas e o mesmo recebeu o título de Doutor honoris causa de 28 universidades espalhadas pelo mundo e também 26 centros de pesquisa recebem o seu nome. A contribuição de Paulo Freire foi além de um método, concebeu uma concepção de alfabetização que revolucionou as idéias até então em circulação. Paulo Freire é autor de uma proposta de alfabetização crítica, de uma filosofia e uma pedagogia.
Silvana Donadio Vilela Lemos
Doutoranda do curso de Educação e Currículo – PUC/SP
PUC/SP
Livros consultados:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à Pratica educativa. 2001,17º edição, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
FREIRE, Paulo. Política e Educação. 2001, 6º edição, Cortez, São Paulo.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 1987, 27º edição, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. 2003, 27º, Paz e Terra, Rio de Janeiro.
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